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São Roque do Paraguaçu

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São Roque do Paraguaçu

São Roque do Paraguaçu – Rio, Trabalho e Memória de Resistência

O lugar e sua formação

São Roque do Paraguaçu é um distrito do município de Maragogipe, localizado às margens do Rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano. Sua história está profundamente ligada aos ciclos econômicos da região, às atividades portuárias e ao transporte fluvial, que, durante os séculos XVIII e XIX, fizeram do território um ponto estratégico de circulação de pessoas, mercadorias e saberes.

A formação de São Roque ocorreu em diálogo com as fazendas, os portos fluviais e os pequenos povoados que surgiam como apoio às rotas do rio. Esse processo contribuiu para a constituição de um espaço social diverso, marcado pela presença de populações negras escravizadas, povos ribeirinhos e comunidades que, ao longo do tempo, construíram práticas culturais, econômicas e identitárias próprias.

O território de São Roque é, desde sua origem, um espaço atravessado por relações desiguais de poder, mas também por estratégias de sobrevivência e resistência que moldaram a vida comunitária.

O rio como eixo da vida social

Em São Roque do Paraguaçu, o rio é mais do que paisagem: é trabalho, caminho e memória. A vida da população sempre esteve ligada ao conhecimento das marés, ao uso do manguezal e às práticas da pesca artesanal e da mariscagem, saberes transmitidos de geração em geração.

Mesmo com as transformações ao longo do século XX — como a instalação do Estaleiro do Paraguaçu, que trouxe empregos e cursos de formação, mas também impactos ambientais — o rio continua sendo referência central da organização do cotidiano.

A relação com o Paraguaçu estrutura o tempo da comunidade, define formas de trabalho e sustenta vínculos culturais e identitários que resistem às mudanças econômicas e ambientais.

Memória oral, violência e luta pela terra

A história de São Roque também é marcada por conflitos agrários, violência no campo e relações de mando características do coronelismo rural. Essas experiências permanecem vivas na memória oral, especialmente nos relatos de moradores mais velhos.

O testemunho de Dona Zézira Ferreira Lima, moradora da região do Buri, revela a dureza da vida sob o poder dos fazendeiros. Ainda criança, ela presenciou a violência sofrida por seu pai, acusado injustamente de roubo e espancado por homens armados a mando de um proprietário local. A mensagem era clara: trabalhar para o fazendeiro significava inocência; recusar-se, prisão e humilhação.

Essas práticas de coerção mantiveram famílias inteiras submetidas a relações de dependência e medo. Mesmo assim, a permanência no território foi garantida pela resistência cotidiana, pelo trabalho coletivo e pela construção de redes de apoio entre os moradores.

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Trabalho, mudanças e resistência comunitária

Ao longo do tempo, São Roque passou por diferentes fases econômicas. Além da pesca e da mariscagem, muitos moradores trabalharam nas fazendas e, posteriormente, em atividades industriais ligadas ao estaleiro e a outras iniciativas produtivas.

Com o declínio de algumas dessas atividades, a comunidade enfrentou novas dificuldades: desemprego, precarização do trabalho e pressões ambientais sobre o rio e o mangue. A pesca predatória, o uso de explosivos e a contaminação da água passaram a ameaçar diretamente o modo de vida ribeirinho.

Mesmo diante desses desafios, os moradores desenvolveram estratégias de adaptação e resistência, reafirmando o vínculo com o território e a importância da organização comunitária.

Comunidades quilombolas e identidade territorial

São Roque do Paraguaçu abriga e se articula com comunidades quilombolas que simbolizam a resistência à escravidão e a afirmação cultural no pós-abolição. Cada comunidade possui suas particularidades, mas compartilham práticas ligadas à ancestralidade africana, ao uso do território e à defesa dos modos tradicionais de vida.

Lideranças quilombolas, como a moradora conhecida como Mara, destacam problemas recorrentes: o desrespeito aos territórios tradicionais, a invasão sem autorização, a fragilidade na fiscalização ambiental e a dificuldade de acesso a políticas públicas.

Também chamam atenção para a falta de oportunidades educacionais para os jovens, que muitas vezes desejam continuar os estudos após o ensino médio, mas encontram barreiras de acesso e mobilidade.

Cultura, fé e memória coletiva

A cultura em São Roque do Paraguaçu se expressa nas festas, nas rezas, nas tradições religiosas e nos encontros comunitários. Práticas como a Esmola Cantada, embora menos frequentes do que em outras localidades, ainda fazem parte da memória cultural do território.

As festas religiosas, o banho de São Pedro e as celebrações ligadas ao rio reforçam os laços entre os moradores e mantêm viva a dimensão simbólica do território. A fé, assim como o trabalho, é um elemento de coesão social e de continuidade histórica.

Educação, território e futuro

Pensar São Roque do Paraguaçu é também refletir sobre a educação territorializada. Os saberes tradicionais — como a leitura das marés, a pesca artesanal, a mariscagem e o cuidado com o manguezal — constituem uma verdadeira enciclopédia viva, que pode e deve dialogar com a escola.

A valorização da história afro-brasileira, das comunidades quilombolas e dos direitos territoriais está em consonância com a Lei nº 10.639/2003, reforçando a necessidade de práticas educativas voltadas às relações étnico-raciais.

Projetos de memória local, educação ambiental, oficinas com marisqueiras e rodas de conversa com moradores antigos são caminhos possíveis para fortalecer o protagonismo comunitário e garantir que as novas gerações compreendam a relevância do território onde vivem.

Permanência e sentido de pertencimento

São Roque do Paraguaçu é um território marcado por conflitos, mas também por coragem. Um lugar onde o rio ensina, o trabalho sustenta e a memória orienta.

A história contada pelos moradores revela que permanecer não é apenas ficar: é resistir, cuidar, lembrar e ensinar. Assim, São Roque segue vivo, como espaço de luta, saberes e esperança no Recôncavo Baiano.