Navegue entre as comunidades do Território Nagé e veja seus pontos de interesse
A comunidade de Santo Antônio da Aldeia está situada no distrito de Nagé, município de Maragogipe, no Recôncavo Baiano, a cerca de sete quilômetros da sede municipal. O próprio nome do lugar carrega marcas profundas de sua história: “Aldeia” remete à presença indígena, ligada aos povos descendentes dos Maragy-pe, que habitavam a região antes da ocupação colonial.
Segundo relatos de estudiosos locais e da memória comunitária, esses indígenas foram expulsos da sede de Maragogipe pelos colonizadores portugueses e buscaram refúgio nas terras que hoje formam a comunidade. A forma tradicional de organização indígena em aldeias contribuiu para a denominação do território, que passou a ser conhecido como Santo Antônio da Aldeia.
O principal marco simbólico e arquitetônico da comunidade é a Igreja de Santo Antônio, construída em 1911, localizada na Vila de Santo Antônio, núcleo mais populoso do território. Atualmente, a comunidade é composta por cinco povoados: Vila de Santo Antônio, Volta do U, Viração, Cinzeiro e Cobocó, reunindo cerca de 139 famílias e aproximadamente 399 moradores. A Vila concentra quase metade da população e abriga a única escola local, que atende até o 5º ano do ensino fundamental.
Historicamente, o modo de vida em Santo Antônio da Aldeia esteve profundamente ligado à agricultura familiar, com destaque para a mandioca e a produção de farinha. As casas de farinha não eram apenas espaços de trabalho, mas também lugares de encontro, conversa e fortalecimento dos laços comunitários.
Nos últimos anos, porém, a comunidade passou por um processo significativo de reconversão produtiva. Das oito casas de farinha que existiam, apenas cinco permanecem ativas, muitas vezes funcionando apenas para o autoconsumo. Os agricultores perceberam que a produção artesanal de farinha exige esforço físico intenso e oferece retorno financeiro reduzido diante da concorrência da farinha industrial.
Diante disso, o cultivo do inhame e do aipim (mandioca mansa vendida in natura) tornou-se a principal alternativa econômica. Esses produtos são considerados mais rentáveis e com retorno financeiro mais rápido. No entanto, essa mudança também trouxe novos desafios: a produção é destinada principalmente a mercados externos, como Salvador e Feira de Santana, sendo vendida por meio de atravessadores, o que limita o controle dos agricultores sobre os preços e gera dependência econômica.
O trabalho em Santo Antônio da Aldeia é essencialmente familiar. A unidade produtiva articula terra, trabalho e gestão dentro da própria família. A divisão sexual do trabalho é um traço marcante: culturalmente, o homem é visto como responsável pelas tarefas mais pesadas, como cavar as covas profundas do inhame ou roçar áreas densas.
No entanto, as mulheres participam ativamente de quase todas as etapas da produção agrícola, além de acumularem os afazeres domésticos e o cuidado com os filhos. Muitas relatam que fazem “tudo o que o marido faz”, embora seu trabalho ainda seja, muitas vezes, tratado como “ajuda” e não plenamente reconhecido.
A estrutura fundiária impõe limites severos ao modo de vida local. As propriedades são pequenas, variando geralmente entre 0,5 e 8 hectares. A falta de terra obriga muitos agricultores a trabalharem como meeiros, cultivando terras de terceiros e dividindo a produção pela metade. Essa escassez também restringe a criação de animais, limitando a produção pecuária a poucos exemplares.
Apesar da crescente presença de lógicas de mercado, Santo Antônio da Aldeia preserva fortes traços da cultura camponesa, especialmente por meio da solidariedade e da reciprocidade. A expressão mais viva dessa prática é o digitório.
O digitório é uma forma de ajuda mútua em que vizinhos, parentes e amigos se reúnem para realizar tarefas pesadas na roça de um agricultor, como cavar covas ou roçar terrenos. Em troca, recebem comida, bebida e a certeza de que o favor será retribuído no futuro.
Mais do que trabalho, o digitório é um momento de convivência. Enquanto os homens trabalham na terra, as mulheres preparam a comida. Ao final do dia, todos se sentam juntos para comer, beber e conversar, reforçando os laços sociais e a identidade coletiva. A agricultura também segue saberes tradicionais, como o respeito às fases da lua, evitando-se o plantio na lua minguante para garantir boas colheitas.
Os modos de vida em Santo Antônio da Aldeia convivem com tensões constantes entre tradição e modernização. O uso de máquinas agrícolas, como tratores e arados mecânicos, tornou-se comum para acelerar o trabalho e reduzir o esforço físico. Para alguns agricultores, pagar horas de trator tornou-se mais viável do que contratar diárias de trabalhadores.
Entretanto, essa modernização também gera efeitos negativos: diminui as oportunidades de trabalho para agricultores com pouca terra, que dependiam das diárias para complementar a renda. Além disso, a comunidade enfrenta outros desafios, como o aumento de pragas e doenças agrícolas, associado ao uso de adubos químicos e esterco de granja, a falta de assistência técnica adequada e a infraestrutura precária, especialmente estradas ruins e dificuldade de transporte.
Para garantir a sobrevivência, muitas famílias recorrem à pluriatividade. Jovens e adultos buscam trabalho fora da agricultura, atuando como pedreiros, motoristas, eletricistas, domésticas ou cuidadoras de idosos. Houve também a busca por empregos no Estaleiro Enseada do Paraguaçu, embora a crise no setor tenha frustrado muitas expectativas.
A continuidade do modo de vida em Santo Antônio da Aldeia enfrenta o desafio da sucessão geracional. Muitos jovens deixam a comunidade em busca de estudo e trabalho, estimulados pela percepção de que o trabalho na roça é pesado e pouco valorizado.
Ao mesmo tempo, cresce entre os pais o desejo de que os filhos estudem e trabalhem fora, mas continuem morando na comunidade, preservando o vínculo familiar e territorial. Alguns jovens optam por permanecer na agricultura, especialmente quando o uso de máquinas torna o trabalho menos penoso.
Assim, o futuro de Santo Antônio da Aldeia depende de um equilíbrio delicado entre tradição e adaptação, entre os saberes ancestrais — como o digitório e o conhecimento das luas — e as exigências de um mundo em transformação.
Santo Antônio da Aldeia é uma comunidade que resiste. Seus moradores enfrentam a invisibilidade política, a pressão do mercado e as limitações estruturais, mas mantêm a terra e a família como pilares centrais de sua existência.
Entre enxadas, tratores, rezas, partilhas e mutirões, a comunidade segue construindo sua história. Permanecer, em Santo Antônio da Aldeia, não é apenas ficar: é cuidar da terra, compartilhar o trabalho, preservar os laços e ensinar às novas gerações que o território também é memória e pertencimento.