Navegue entre as comunidades do Território Nagé e veja seus pontos de interesse
Ponta de Souza é uma comunidade tradicional localizada no município de Maragogipe, no Recôncavo Baiano, inserida no complexo de manguezais da Baía do Iguape. Diferente de outros territórios antigos da região, Ponta de Souza não surgiu como um povoado histórico formal, mas como resultado de um processo migratório recente, ligado diretamente ao trabalho no mangue e à pesca artesanal.
Os próprios moradores definem o lugar como um “braço de Nagé”. Famílias vindas de Nagé, Coqueiros, Santo Antônio da Aldeia e Cachoeira passaram a ocupar a área em busca de maior proximidade com as coroas, os bancos de marisco e os caminhos da pesca a pé. Assim, a comunidade se formou a partir da necessidade concreta de viver perto da maré.
Em Ponta de Souza, o manguezal não é apenas fonte de renda: é vida, identidade e pertencimento. Os moradores se reconhecem como pescadores e marisqueiras, com orgulho de pertencer a Maragogipe. A maré é descrita como aquilo que deu tudo o que a comunidade tem — o sustento, a criação dos filhos, o lazer e o sentido de existir. A vida local é marcada por uma condição quase anfíbia, em que o tempo e os deslocamentos sempre foram regulados pelas águas.
Um dos temas centrais do relato sobre Ponta de Souza é a grave crise ambiental que atinge o território e compromete diretamente a sobrevivência da comunidade. Moradores relatam uma queda drástica na produtividade da pesca e da mariscagem. Locais que antes garantiam grandes quantidades de marisco hoje mal sustentam o trabalho diário.
Segundo os pescadores, o impacto mais devastador vem da Barragem da Pedra do Cavalo e da forma como a água é gerida. A liberação repentina e em grande volume de água doce — chamada pelos moradores de “água morta” ou “água de turbina” — altera a salinidade do mangue, provoca a morte dos mariscos e deixa o lodo apodrecido, impróprio para a reprodução das espécies.
Foram mencionados eventos críticos em 2013, 2016 e 2020, quando a comunidade passou meses sem conseguir trabalhar. A isso se somam o assoreamento do mangue, o excesso de lama profunda, a poluição por esgoto e resíduos químicos, criando um cenário de degradação contínua.
Para quem vive da maré, essas mudanças não são abstratas: significam fome, endividamento e perda de dignidade.
Ponta de Souza possui uma Associação Comunitária Beneficente, criada há quase trinta anos. No entanto, o próprio vídeo revela as dificuldades de mobilização política enfrentadas pela comunidade. Moradores apontam que, no passado, havia maior união; hoje, a participação coletiva é frágil.
Muitas famílias deixam de comparecer às reuniões, delegam decisões a poucas lideranças ou apenas esperam pelos resultados. Esse enfraquecimento compromete a capacidade de pressão política e a defesa do território.
Há também uma crítica direta ao Estado e às políticas públicas, percebidas como distantes da realidade local. As leis ambientais são impostas “de cima para baixo”, sem escutar quem vive do mangue. Enquanto pescadores são criminalizados por retirar pequenas varas de mangue para consertar suas casas, grandes empreendimentos destroem extensas áreas sem responsabilização.
A comunidade sente-se invisibilizada, lembrada apenas em períodos eleitorais ou como mão de obra barata, mas raramente tratada como sujeito de direitos.
O turismo aparece como um campo de tensão. Para muitos visitantes e para o poder público, Ponta de Souza é vista apenas como uma passagem para a praia, ignorando que ali existe uma comunidade tradicional com história, trabalho e cultura.
O turismo atual é descrito como desordenado e desrespeitoso, sem retorno econômico real para os moradores e com impactos negativos sobre o território. Pessoas chegam, consomem o espaço e partem, sem diálogo com a comunidade.
Diante disso, os moradores defendem a ideia de um Turismo de Base Comunitária, no qual o visitante não apenas “use” a praia, mas conheça o mangue, compreenda o trabalho da pesca e da mariscagem, valorize os saberes locais e contribua para a economia da própria comunidade. Para isso, porém, é necessário que os turistas saibam chegar — com respeito, escuta e responsabilidade.
A principal celebração religiosa de Ponta de Souza é a festa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, momento de grande união comunitária. A festa preserva uma característica marcante: o sagrado vem antes do profano, reafirmando valores de fé, respeito e coletividade.
Ao mesmo tempo, há um alerta preocupante sobre a perda dos saberes tradicionais da pesca. Os moradores mais antigos observam que as novas gerações dominam técnicas específicas, como o uso da concha ou da gaiola, mas desconhecem os fundamentos da profissão: a leitura das marés, das luas, dos ventos e dos sinais da natureza.
Esse conhecimento profundo — chamado por muitos de saber “raiz” — corre o risco de não ser transmitido. A pressão do capital, a degradação ambiental e a desvalorização do modo de vida tradicional contribuem para que as comunidades esqueçam suas próprias bases, abrindo caminho para a perda do território.
Ponta de Souza pode ser comparada ao próprio manguezal em que está inserida: um ambiente resistente, capaz de sustentar a vida mesmo em condições adversas, mas que depende de equilíbrio para continuar existindo.
Hoje, a comunidade enfrenta o sufocamento causado por políticas externas, barragens, degradação ambiental e descaso público. Ainda assim, permanece. Permanecer, em Ponta de Souza, significa lutar para não ser esquecido, defender a maré como fonte de vida e afirmar que o território não é vazio — é casa, trabalho, memória e futuro.