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Guaí

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Quilombo Guerém

Guerém

O lugar e sua história

O Guerém é uma comunidade quilombola localizada na zona rural de Maragogipe, no Recôncavo Baiano. Situada próxima ao mangue do Guaí, integra o conjunto de comunidades que formam o Território Quilombola do Guaí, onde vivem mais de quinhentas famílias.

Essas terras faziam parte das antigas Fazenda Guaí e Fazenda Guerém, pertencentes à família Pereira Guedes, proprietária de extensas áreas de cultivo de cana-de-açúcar e de produção cerâmica.

O nome “Guerém” tem origem em um povo indígena que habitava a região no passado. A memória do trabalho forçado e das lutas pela permanência na terra permanece viva nas histórias contadas pelos mais velhos.

Durante muito tempo, as famílias que viviam no Guerém trabalharam nas fazendas em troca de moradia ou de parte da produção. Era comum o sistema da “terça”, no qual o agricultor entregava um terço da colheita ao dono da terra. Muitas vezes, o próprio fazendeiro — ou seu capanga — escolhia a melhor parte da plantação para si. Essa forma de dependência marcou a vida de gerações e, por isso, muitos moradores descrevem esse período como uma continuação da escravidão.

Apesar das condições duras, a comunidade resistiu. A moradia, o plantio e a sobrevivência dependiam de acordos desiguais, mas, ainda assim, foram construídos vínculos de vizinhança, ajuda mútua e solidariedade que sustentam o modo de vida local até hoje.

A luta pelo reconhecimento

O processo de autorreconhecimento quilombola do Guerém foi liderado por Janete Barbosa Senna, marisqueira e liderança comunitária. A mobilização teve início nos anos 2000, em articulação com comunidades vizinhas como Giral Grande, Tabatinga e Baixão do Guaí.

Em 11 de julho de 2005, o Guerém recebeu a Certidão de Autorreconhecimento da Fundação Cultural Palmares, um marco fundamental na luta pelo território e pelos direitos das famílias quilombolas.

Durante esse processo, foram realizadas diversas reuniões e oficinas na comunidade, que ajudaram os moradores a compreender a importância de sua história e a fortalecer a identidade coletiva. Como recorda uma das moradoras mais antigas: “A gente aprendeu a dizer que é quilombola com orgulho.”

Trabalho, resistência e transformação

A vida no Guerém sempre esteve ligada ao trabalho na roça, na olaria e no mangue. As olarias, responsáveis pela produção de blocos e telhas, foram uma das principais fontes de sustento ao longo do século XX.

Muitas mulheres, como Dona Nina (Maria Bispo dos Santos Barbosa), começaram a trabalhar ainda crianças, ajudando os pais na lavoura e, mais tarde, nas olarias. Ela recorda o esforço de arrastar barro pesado e moldar blocos até a noite. O pagamento era baixo, e o medo da expulsão das terras era constante.

Mesmo diante de tantas dificuldades, o trabalho coletivo mantinha viva a esperança de dias melhores.

Com o tempo, o cultivo da cana e a produção de cachaça perderam força, e a mariscagem se tornou a principal atividade da comunidade. Mulheres e homens passam boa parte do dia no mangue, catando sururu, lambreta e caranguejo. O conhecimento sobre as marés, as redes e os ciclos da natureza é transmitido dos mais velhos para os mais novos.

O sistema da “terça”, que perdurou por décadas, ajuda a explicar a centralidade do trabalho coletivo e o valor atribuído à autonomia no Guerém.

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Cotidiano e saberes do lugar

Os moradores do Guerém mantêm uma relação profunda de respeito com o território. O mangue é visto como fonte de vida e também como espaço de memória. Muitos acreditam que ali habitam entidades protetoras, como a Vó do Mangue, além de figuras do imaginário popular, como o lobisomem, presentes nas conversas ao entardecer.

A convivência entre gerações é uma marca forte da comunidade. Os mais velhos ensinam a plantar, a pescar, a rezar, a curar e a cuidar das pessoas. Há quem saiba rezar de olhado, vento e cobra, práticas herdadas dos antepassados e preservadas com zelo.

A agricultura segue presente, com o plantio de mandioca, milho e hortaliças. O que se colhe alimenta as famílias e, quando sobra, é partilhado. Quem tem peixe divide; quem tem farinha oferece; quem colhe, compartilha.

Cultura e religião

O Guerém sempre teve uma forte vida religiosa. No passado, as festas de São Cosme e Damião, os carurus e as rezas ligadas ao candomblé reuniam famílias de várias partes do território.

As mães de santo conduziam as celebrações em suas próprias casas, pois os fazendeiros proibiam a construção de barracões. Com o tempo, muitas dessas festas diminuíram, mas a fé continua sendo um pilar da vida comunitária.

As práticas de matriz africana seguem presentes nas rezas, nas curas e nos rituais domésticos, convivendo com o catolicismo popular.

Desafios e esperanças

A comunidade enfrenta desafios históricos. A estrada de acesso é precária, falta um espaço fixo para encontros e eventos, e há a necessidade de políticas públicas que garantam o uso sustentável do mangue e o apoio à produção local.

Mesmo assim, o sentimento de pertencimento é forte. Jovens e adultos buscam novas oportunidades sem abrir mão da vida no lugar. Como dizem com orgulho: “Aqui é tranquilo, o vizinho ajuda o outro, e a gente vive em paz.”

As marcas do tempo das fazendas ainda aparecem nas desigualdades de acesso à terra e aos serviços públicos, mas a organização das famílias e a atuação das lideranças mostram que a história do Guerém continua sendo escrita por quem vive e trabalha ali.

Vozes e conselhos dos mais velhos

Para os mais velhos, a principal lição é o respeito e o estudo. “Quem honra pai e mãe não se perde”, ensinam.

Eles veem a educação como caminho para que os jovens compreendam sua história e cuidem da comunidade. Dona Nina, que chegou ao Guerém “com a roupa do corpo”, resume o sentimento coletivo: “Hoje tenho minha casa, meus filhos e paz. Aqui é o meu lugar.”