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Guaí

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Guaruçu

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O lugar e suas origens

O Guaruçu é uma comunidade quilombola situada no distrito do Guaí, município de Maragogipe, no Recôncavo Baiano. Seu nome vem do rio que nasce na própria localidade, palavra de origem tupi que significa “rio dos guarás”, em referência às aves vermelhas que habitavam a região e aos peixes que existiam em abundância em suas águas.

A história do lugar está ligada às antigas fazendas de cana-de-açúcar e ao trabalho forçado nas propriedades da família Pereira Guedes. Durante séculos, as famílias negras que viviam nessas terras foram obrigadas a entregar parte do que produziam aos fazendeiros, em um regime conhecido como terça ou renda. Mesmo diante da dureza do trabalho e da vigilância dos chamados “capitães do mato”, muitos fugiram e encontraram abrigo nas matas próximas, unindo-se a indígenas que já conheciam profundamente o território.

Assim nasceram os primeiros agrupamentos familiares que, com o tempo, transformaram o refúgio em moradia e a sobrevivência em modo de vida.

O território e o cotidiano

Hoje, o Guaruçu abriga cerca de oitenta famílias que vivem principalmente da roça e da produção de farinha de mandioca, contando com aproximadamente 22 casas de farinha. A paisagem se organiza entre quintais, roçados e casas de taipa ou de alvenaria simples. A cada três moradias, há uma casa de farinha — verdadeiro coração do trabalho coletivo.

A agricultura de subsistência garante o alimento e parte da renda das famílias: planta-se mandioca, milho, inhame e hortaliças. Os excedentes são vendidos. Além da agricultura, a comunidade também vive da pesca e da mariscagem, realizadas na maré do Guaí. O conhecimento sobre o plantio, as chuvas e as fases da lua é transmitido pelos mais velhos, que também ensinam o uso das plantas medicinais cultivadas nos quintais. As folhas são as mais utilizadas, em chás e infusões que curam o corpo e fortalecem a alma.

O território é mais do que espaço de trabalho: é lugar de memória. As famílias Neris, Barros e Conceição mantêm laços de parentesco que estruturam a vida comunitária. “Quem nasce aqui volta pra cá”, dizem os moradores, reforçando o sentimento de pertencimento.

Mulheres, trabalho e memória

As mulheres do Guaruçu sempre tiveram papel central no sustento da comunidade. Marisqueiras, lavradoras, parteiras e rezadeiras formam a base que sustenta o lugar.

Dona Nenzinha e sua família carregam na memória as lutas contra o domínio dos fazendeiros — como o dia em que um deles mandou derrubar a casa de sua família. Apesar das perdas e da violência sofrida, a comunidade transformou a dor em força coletiva, e hoje a família de Dona Nenzinha conquistou o direito à terra onde vive.

A sabedoria feminina também se expressa nas folhas e nas rezas: há quem cure “olhado”, “vento” e “cobra”, como ensinavam as avós. Cada oração é uma herança de resistência; cada gesto, um fio que liga o presente à ancestralidade.

Fé, natureza e espiritualidade

A espiritualidade no Guaruçu reúne o catolicismo popular e as tradições afro-indígenas. A fé se manifesta nas festas de santos, nos encantos da natureza e nas folhas que curam.

O mato e o rio são espaços sagrados. A crença na força da natureza revela uma ética de cuidado: cuidar da terra é agradecer pela vida. No Guaruçu, espiritualidade e território caminham juntos, como partes inseparáveis da existência comunitária.

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Lutas e reconhecimento

O processo de autorreconhecimento começou quando a Pastoral dos Pescadores apresentou à comunidade a noção de “direitos e deveres”. “Pior do que tá, não fica”, disse Lenira, ao decidir seguir na luta.

Lenira Calheiros e Janete Barbosa, lideranças históricas, participaram ativamente do processo de reconhecimento quilombola. Em 27 de novembro de 2006, o Guaruçu passou a integrar oficialmente o conjunto de comunidades do Guaí — Giral Grande, Tabatinga, Guerém e Porto da Pedra — que receberam a Certidão de Autorreconhecimento da Fundação Cultural Palmares.

A luta, porém, continua. A comunidade enfrenta carência de infraestrutura, conflitos fundiários, falta de oportunidades de emprego e pouco apoio às produções locais. Ainda assim, o sentimento de dignidade se fortalece. Como afirma um morador: “Antes a gente não tinha documento nem autoestima. Hoje o governo respeita mais, e a gente aprendeu a se olhar diferente.”

Caminhos e esperanças

O Guaruçu é um rio de memória que segue correndo, mesmo quando o caminho se estreita. As famílias buscam políticas públicas, sonham com a ampliação da escola e com o fortalecimento das casas de farinha.

O orgulho quilombola floresce nas novas gerações, que estudam, retornam e dão continuidade ao que os antigos começaram. O futuro do Guaruçu depende de manter viva a história contada nas rodas de conversa, nas rezas e nas folhas. Porque cada gesto de cuidado — plantar, rezar, ensinar — é também uma forma de afirmar que o quilombo permanece.

Curiosidade: A história da Escola Santo Antônio

A escola da comunidade quilombola do Guaruçu, fundada no ano 2000, nasceu do esforço e da coragem da moradora Evonice de Barros Neris Faleiro. Ela vendeu tudo o que tinha para construir uma sala onde as crianças pudessem estudar sem precisar sair da comunidade.

Quando chegou a hora de dar um nome à escola, Evonice escolheu Santo Antônio, seu santo de devoção. A decisão gerou conflitos: pessoas de fora pressionaram para que o nome fosse trocado em homenagem ao prefeito da época. Mesmo diante das pressões e de diversas tentativas de fechamento da escola, Evonice não recuou, e a escola permaneceu funcionando.

Hoje, os moradores lutam pela permanência desse espaço, fruto de uma infância marcada por dificuldades e pela falta de acesso à educação. A resistência garantiu que a escola mantivesse o nome escolhido, o mesmo da igreja local. Assim, fé e educação se uniram como símbolos da autonomia e da força do povo do Guaruçu.

Curiosidade: A Igreja de Santo Antônio

A Igreja de Santo Antônio foi fundada por iniciativa de Evonice, com o apoio da comunidade. É um espaço de renovação, onde fé e devoção caminham lado a lado.

Os festejos de Santo Antônio acontecem no dia 13 de junho. São celebradas a trezena, as novenas em homenagem às famílias da comunidade, o tríduo e a missa do dia 13, que se tornou tradição no Guaruçu. Também fazem parte da festa a cavalgada com as imagens de Santo Antônio e Nossa Senhora Aparecida, além da bandeira do padroeiro, que passa de mãos em mãos para arrecadar recursos para a festa do ano seguinte.

No dia de Santo Antônio, um menino se veste como o padroeiro da comunidade para distribuir pães, símbolo de fartura, desejando que nunca falte alimento à mesa e que haja abundância na vida de quem os recebe.