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Guaí

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Giral Grande

O lugar e suas origens

Giral Grande é uma comunidade quilombola situada no distrito do Guaí, município de Maragogipe, no Recôncavo Baiano. Sua formação está ligada à história da escravidão na região e à presença de povos indígenas que habitavam as margens do Rio Paraguaçu.

Onde hoje se encontra a antiga Vila de Capanema, havia uma grande aldeia indígena da etnia Aimoré. Por volta do século XVI, essa aldeia foi invadida pelos portugueses. Nesse conflito, centenas foram mortos e outros tantos escravizados. Alguns anos depois, com a chegada de africanos oriundos de diferentes regiões do continente africano, começou a construção e implantação do engenho de cana-de-açúcar, e a escravização desses dois povos se intensificou.

No lugar da antiga aldeia indígena formou-se, inicialmente, a Vila de Santo Antônio, pois a igreja construída ali era dedicada a Santo Antônio. Dona Francisca Gonçalves dos Santos Calheiros, filha de Guilherme Grosso, chegou a ver a Casa Grande em funcionamento. Hoje, porém, o engenho, a igreja e a Casa Grande são ruínas. Resta apenas o cemitério, construído atrás da igreja, onde eram enterrados os negros.

A Vila de Santo Antônio, na época da peste bubônica, já se chamava Vila de Capanema. Segundo a memória local, ratos e pulgas infectados trouxeram a peste ao Brasil pelos navios europeus.

De acordo com a tradição oral, esse senhor de engenho era muito violento com seus escravizados e até com seus empregados brancos. Luiz Brito Calheiros contava que sua mãe, Dona Marculina, dizia assim: o “maldito inhô”, quando queria “aprumar a carabina”, mandava que todos viessem para a frente da Casa Grande e escolhia o menino negro mais fraquinho. Segundo ele, aquele “neguinho” só ia lhe dar prejuízo. E, sem piedade, dizia: “Sobe aí no coqueiro, muleque, pra eu testar minha pontaria…”
Todos já sabiam o que iria acontecer. Sem ninguém para salvá-lo, o menino chorava, e seus irmãos de cor, entristecidos, lamentavam em silêncio, até que o corpinho caía sem vida no chão.

Esse escravocrata era muito perverso, como dizia Dona Marculina.

Negros e indígenas também usavam suas artimanhas para amedrontar capatazes e capitães do mato. Os negros contavam histórias de orixás e voduns, e os indígenas, com seu conhecimento do território, narravam lendas de espíritos da mata. Esse medo, por muito tempo, fez com que evitassem subir pelas matas para capturar negros e indígenas que fugiam mata adentro.

Assim, Giral Grande começou a ser formado por negros descendentes dos escravizados e por indígenas Aimorés que fugiram dos engenhos e fazendas próximas. Esses grupos encontraram refúgio nas áreas de mata e aprenderam a viver em cooperação, partilhando a terra e o trabalho com grupos indígenas que já conheciam o território.

Dona Marculina Calheiros nasceu na Tabatinga, e sua fonte de renda e subsistência era fazer objetos de barro (um saber associado à cultura indígena), que muitas vezes eram trocados por farinha e outros alimentos, por meio do escambo. A comunidade remanescente de quilombo Tabatinga é separada da comunidade remanescente de quilombo Giral Grande apenas pelo Rio Tabatinga.

Antônio Brito, conhecido por Piloto, e Manoel Brito, conhecido por Coió, eram negros de cabelos pretos e lisos (chamados, à época, de “cabo-verdianos”).

O nome “Giral” aparece nas falas dos moradores como referência a um jirau — uma estrutura de madeira usada antigamente nos quintais, para lavar pratos e guardar panelas. Ainda hoje, caçadores utilizam essa estrutura para vigiar e “atucaiar” a caça, garantindo segurança para não ser “ofendido por bicho de chão” (cobra, escorpião etc.).

Com a fuga de negros e indígenas para as matas acima do engenho, os pontos altos funcionavam como um “giral”: de cima, subiam nas árvores e observavam a movimentação dos capitães do mato que tentavam subir para capturá-los. Nesse tempo, havia mata fechada. Luiz Brito Calheiros contava que ele, seus irmãos, primos e amigos saíam da cabeceira de uma montanha e conseguiam chegar à Vila de Capanema, à beira da maré, andando pelas copas das árvores, sem tocar os pés no chão. Isso nas décadas de 1940 e 1950, quando ainda eram meninos.

Outros associam o termo ao movimento circular das rodas de conversa (costume herdado dos indígenas) e das festas religiosas. Independentemente da origem exata, o nome expressa atenção constante ao entorno, cuidado e vigilância — traços que se tornaram parte da identidade do grupo. Nos dias atuais, existe um grupo de samba chamado Samba do Giral.

Com o tempo, o que era refúgio transformou-se em comunidade com identidade negra: pessoas de pele preta e cabelos pretos ou castanhos, crespos, levemente lisos ou cacheados, evidenciando a mistura entre negros e indígenas. As famílias fixaram moradia, abriram roçados e estabeleceram relações.

O território e o cotidiano

O território de Giral Grande se organiza em torno de casas, roças, caminhos e áreas de vegetação que se estendem até o rio. É nesse espaço que se produzem alimentos, se realizam rezas e se constroem as relações sociais que sustentam a comunidade.

A terra não é vista como bem econômico, mas como lugar de pertencimento e continuidade familiar. Os moradores costumam dizer que “quem nasce aqui volta pra cá”, indicando o vínculo afetivo e simbólico com o espaço.

Um negro morando aqui, já pelo nome ou pelo apelido, mostra seu pertencimento ao lugar. Mesmo que um fazendeiro tenha documento que lhe garanta a posse, nós, quilombolas, entendemos que essas terras fazem parte do que nós somos. Ao contrário de outros lugares, onde precisamos dizer nome e sobrenome, dentro do quilombo basta dizer quem é o pai, a mãe, os avós, e já se conhece a pessoa — e também se diferencia os tantos Roques, Antônios, Josés, Antonias, Marias, Ritas.

Basta dizer:

“Sou Toi, filho de Chica, de Luiz de Vicente.”

“Sou Rose, de Zélia, de Piane.”

“Sou Mateus, de Toi, de Chica.”

“Sou Sinho, de Anarita, de Ventura.”

“Sou Saulo, de Ana, de Piloto.”

Todo mundo sabe quem é e respeita.

Como os moradores dizem: “Nosso umbigo foi enterrado aqui. Aqui é nosso lugar. Nós pertencemos a essas terras.” O trabalho agrícola, a produção de farinha e o uso de plantas medicinais continuam sendo atividades centrais. A paisagem, com suas matas e mangues, reflete um equilíbrio entre uso e preservação.

O conhecimento do terreno, das marés e das épocas de plantio é transmitido oralmente e faz parte do modo de ensinar das gerações mais velhas. A vida cotidiana segue o ritmo das estações e das festas religiosas, que ajudam a organizar o tempo comunitário.

As mulheres e a continuidade cultural

As mulheres têm papel fundamental na organização social e cultural de Giral Grande. Elas são responsáveis por boa parte do sustento das famílias e também pela preservação de práticas tradicionais.

Destaca-se o artesanato de retalhos, atividade que combina criatividade e memória. Com sobras de tecido, as artesãs produzem colchas e painéis que expressam as cores e os símbolos do lugar. Essa prática não é apenas fonte de renda: é também um modo de narrar a história local — cada pedaço costurado carrega lembranças, afetos e experiências compartilhadas.

As relações de solidariedade entre as mulheres também aparecem nas rezas, nas festas e nos mutirões. São elas que mantêm vivas as redes de cuidado e transmissão do saber. A presença feminina sustenta o equilíbrio da comunidade e garante que as histórias dos antepassados continuem sendo contadas.

Fé, natureza e espiritualidade

A religiosidade em Giral Grande combina catolicismo popular e saberes de matriz africana e indígena. As festas de São Cosme e Damião e de Santa Bárbara convivem com práticas ligadas ao respeito à natureza e aos chamados encantados — seres espirituais que habitam o rio e o mato. Entre eles, as figuras da Vovó do Mato e da Vovó do Mangue simbolizam cuidado e proteção do território.

Essa espiritualidade expressa uma visão integrada do mundo, em que trabalho, fé e ambiente formam um mesmo sistema de valores. Cuidar da terra é uma forma de gratidão e preservação. Mais do que religião, trata-se de uma ética de convivência que orienta o uso responsável dos recursos e reforça os laços coletivos.

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Lutas e reconhecimento

O reconhecimento de Giral Grande como comunidade quilombola ocorreu em 2005, a partir de um processo de mobilização apoiado pela Pastoral dos Pescadores e por instituições ligadas à defesa dos direitos territoriais. A certificação da Fundação Cultural Palmares foi um marco importante, mas a luta pela titulação da terra e pelo acesso a políticas públicas continua sendo um desafio.

As dificuldades enfrentadas — falta de infraestrutura, carência de serviços e pressões externas sobre o território — não apagam o sentido de pertencimento que une as famílias. A memória das lutas passadas orienta a resistência no presente. As práticas cotidianas, as festas, o artesanato e as rezas funcionam como formas de afirmação identitária diante das transformações que chegam de fora.

Caminhos

A história de Giral Grande mostra como comunidades formadas em condições adversas transformaram o isolamento em convivência e o medo em permanência. O território é, ao mesmo tempo, espaço de produção e de memória. Nele, as pessoas aprendem, ensinam e se reconhecem umas nas outras.

Mais do que um símbolo de resistência, Giral Grande é uma experiência de continuidade. A vida ali se organiza a partir de gestos simples — plantar, costurar, rezar, conversar — que garantem a permanência de uma história coletiva. O passado não é visto como algo distante, mas como parte da vida presente, que se renova a cada geração.