Navegue entre as comunidades do Território São Roque do Paraguaçu e veja seus pontos de interesse
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A Enseada do Paraguaçu é uma comunidade tradicional localizada no município de Maragogipe, no Recôncavo Baiano, situada na foz do Rio Paraguaçu, onde o rio encontra a Baía do Iguape. Trata-se de uma região marcada por extensos manguezais, águas doces e salgadas que se misturam, formando um dos ecossistemas mais ricos da Baía de Todos os Santos.
A origem da comunidade está ligada às antigas fazendas da região, especialmente à chamada Fazenda Cruzeiro, que mais tarde passou a ser conhecida como Fazenda Enseada. As famílias que ali se estabeleceram construíram um modo de vida profundamente conectado ao rio, ao mangue e à terra, transmitindo seus saberes por meio da oralidade e da prática cotidiana.
Em 2006, a comunidade foi reconhecida oficialmente como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares. Esse reconhecimento fortaleceu a identidade coletiva, mas também intensificou conflitos fundiários, uma vez que a regularização das terras ainda não foi plenamente concluída.
Durante grande parte de sua história, a Enseada viveu em relativo isolamento. O acesso à comunidade dependia das marés: quando a maré baixava, era preciso atravessar lama e água para alcançar as embarcações. A iluminação vinha de candeeiros, a água era retirada dos rios e não havia posto de saúde nem energia elétrica.
O transporte para Salvador era feito pelo navio Maragujipe, que não atracava no porto. Os moradores precisavam ir de canoa até o meio do rio para embarcar, transformando cada viagem em um acontecimento coletivo.
Com o passar do tempo, chegaram a energia elétrica, a água encanada, a estrada ligando a Enseada a Salinas e a ponte sobre o Rio Baetantã. Apesar dessas mudanças, muitos moradores afirmam que a melhoria da infraestrutura não resolveu todos os problemas de mobilidade e acesso a serviços.
A base da sobrevivência na Enseada sempre foi a pesca artesanal, a mariscagem, a pequena roça e o extrativismo vegetal. Os homens tradicionalmente se dedicam à pesca em canoas e redes, enquanto as mulheres são protagonistas na mariscagem, coletando sururu, ostra, lambreta e outros frutos do mangue.
O conhecimento é aprendido “fazendo”: os mais velhos ensinam aos mais novos o tempo certo da pesca, as fases da lua, os meses adequados para plantar e colher. Esse saber garante não apenas o sustento, mas também o equilíbrio com a natureza.
Além da pesca, havia atividades como o corte da piaçava para produção de vassouras, a fabricação de azeite de dendê e pequenas plantações de coco, banana e amendoim. A economia era simples, mas sustentada por laços de solidariedade e ajuda mútua.
A vida na Enseada começou a mudar profundamente com a implantação do Estaleiro Enseada do Paraguaçu, no contexto do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e da política de fortalecimento da indústria naval brasileira.
Para viabilizar o empreendimento, houve alterações nos limites da Reserva Extrativista Marinha Baía do Iguape, criada em 2000 para proteger o território e os modos de vida tradicionais. A promessa era de desenvolvimento, milhares de empregos e melhoria das condições de vida.
No início, houve um aumento temporário da renda e do comércio local. Muitas pessoas trabalharam na obra, pousadas e restaurantes surgiram, e a comunidade viveu um breve momento de expectativa.
Com o avanço das obras, os impactos se tornaram evidentes. Manguezais foram aterrados, áreas tradicionais de pesca — como o chamado Canto da Lama — foram dragadas, e o fluxo das águas foi alterado. A salinidade aumentou, espécies de mariscos desapareceram e peixes começaram a surgir mortos ou com sinais de contaminação.
A dragagem do rio, o tráfego de grandes navios e a poluição sonora afugentaram os peixes. Surgiram algas estranhas que entopem redes e inviabilizam a pesca. Para as mulheres marisqueiras, o impacto foi ainda maior: os caminhos tradicionais até o mangue foram bloqueados, obrigando-as a percorrer trajetos longos e perigosos, gerando medo e insegurança.
A chegada de milhares de trabalhadores de fora alterou a dinâmica social da comunidade, trazendo aumento da violência, conflitos internos, prostituição e drogas. A promessa de empregos também dividiu os moradores entre os que acreditavam no projeto e os que denunciavam seus efeitos.
Com a crise das empreiteiras e a Operação Lava Jato, as obras do estaleiro foram paralisadas em 2015. Milhares de trabalhadores foram demitidos, e a economia local entrou em colapso. Muitos moradores que haviam abandonado a pesca perderam também o direito ao seguro-defeso, ficando sem renda.
Atualmente, o estaleiro funciona como porto para exportação de minério de ferro, atividade que não fazia parte do projeto original e que gera novos problemas, como a poluição do ar por pó de ferro, afetando principalmente crianças e idosos.
A comunidade ficou com o passivo ambiental e social: o mangue degradado, o rio alterado e poucas alternativas de trabalho.
Apesar de tudo, a Enseada do Paraguaçu mantém viva sua cultura. A Festa de Nossa Senhora do Rosário, com a Esmola Cantada e a lavagem da igreja, continua sendo um momento central de união comunitária. A tradição da Barquinha, realizada no dia 31 de dezembro, celebra a Rainha do Mar com samba, música e agradecimento pela colheita do ano.
Essas festas são organizadas pela própria comunidade, de porta em porta, reafirmando a autonomia, a fé e o pertencimento.
A Enseada do Paraguaçu é hoje um território marcado por contradições: riqueza natural e degradação ambiental, promessas de progresso e perdas profundas, memória e luta cotidiana.
Ainda assim, os moradores afirmam com orgulho que ali é “o melhor lugar do mundo”. Permanecer na Enseada significa resistir, cuidar do território, transmitir os saberes ancestrais e lutar para que as novas gerações possam estudar, trabalhar e viver sem que a história e a cultura do povo sejam apagadas.
A Enseada segue viva — entre o rio e o mangue, entre a memória e a esperança.