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Nagé é um distrito ribeirinho do município de Maragogipe, localizado às margens do Rio Paraguaçu, na região da Baía do Iguape, no Recôncavo Baiano. O território é formado por diversos povoados e se constituiu historicamente como ponto de passagem, encontro e permanência, articulando rio, mar e terra firme.
A origem de Nagé está ligada à presença indígena, ao porto fluvial e às dinâmicas do período colonial. Desde o século XVII, a localidade funcionou como ponto estratégico de circulação de pessoas, mercadorias e alimentos entre o Recôncavo e Salvador. O porto, ativo por séculos, marcou profundamente a organização do espaço e da vida social, tornando o rio elemento central da história local.
A formação do território também se relaciona às experiências de resistência negra. Próximo dali surgiu o quilombo do Pinho, que mais tarde deu origem a um dos mais antigos terreiros da nação Jeje na Bahia. Esse passado expressa a convivência entre trabalho forçado, fuga, espiritualidade e construção de modos próprios de viver, que permanecem como referências simbólicas da comunidade.
Em Nagé, o rio não é apenas paisagem: é trabalho, memória e identidade. A pesca artesanal e a mariscagem estruturam o cotidiano de grande parte das famílias. Os moradores organizam sua vida conforme as marés, as luas e os ciclos naturais, conhecimentos transmitidos de geração em geração.
Tradicionalmente, os homens se dedicam à pesca de peixes no Paraguaçu e na baía, enquanto as mulheres — as marisqueiras — atuam na coleta e beneficiamento de frutos do mar, como sururu, ostra e camarão. O trabalho é intenso e exige domínio do território, resistência física e cooperação familiar.
Segundo relatos recorrentes no vídeo e no material de pesquisa, cerca de 80% das famílias ainda dependem diretamente da pesca e da mariscagem para sobreviver. O camarão defumado tornou-se o principal símbolo econômico de Nagé, sendo preparado de forma artesanal e vendido em feiras e mercados da região.
Ao longo do século XX, Nagé viveu profundas transformações econômicas. Com o declínio do transporte fluvial e o avanço das estradas, o porto perdeu sua centralidade. Nesse contexto, muitas famílias passaram a trabalhar na indústria fumageira, especialmente nas fábricas de fumo e charuto.
Quando essas fábricas fecharam, foram principalmente as mulheres que reinventaram o trabalho. Surgiram as charuteiras domésticas, que transformaram suas próprias casas em espaços de produção manual. Esse arranjo permitiu conciliar trabalho remunerado, cuidado com a família e permanência no território, revelando a força da organização feminina diante da precarização econômica.
Essa capacidade de adaptação mostra que, em Nagé, o trabalho não é apenas meio de sobrevivência, mas também forma de resistência e afirmação de dignidade.
A cultura de Nagé expressa a convivência entre catolicismo popular, matrizes africanas e saberes tradicionais ligados ao rio. O antigo terreiro do Pinho permanece como referência histórica e espiritual, mesmo com as mudanças no território.
Entre as manifestações culturais mais marcantes está a festa de Nagé, realizada tradicionalmente no mês de janeiro. O ponto alto da celebração é o bordejo — uma corrida de canoas pelo rio Paraguaçu, que simboliza a união da comunidade, o orgulho dos pescadores e a ligação profunda com as águas. Nesse momento, trabalho, fé e festa se encontram, transformando o cotidiano em celebração coletiva.
As novenas, as rezas e as festas religiosas reforçam os laços comunitários e ajudam a manter viva a memória do lugar.
Nagé é um território atravessado por mudanças. O porto silenciou, as fábricas fecharam, o rio sofreu com barragens, desmatamento e alterações ambientais. Essas transformações impactaram diretamente a pesca e reduziram o número de pescadores ao longo dos anos.
Mesmo assim, a comunidade mantém práticas que garantem continuidade: o preparo do camarão defumado, a mariscagem, a transmissão dos saberes da pesca, as festas e a vida coletiva. Persistem desafios como a baixa renda, a informalidade do trabalho, a pressão ambiental sobre os manguezais e a falta de políticas públicas que valorizem os produtos locais.
Apesar disso, o sentimento de pertencimento permanece forte. Para muitos moradores, Nagé é mais do que um lugar de moradia: é herança, memória e modo de viver. Como expressam os relatos do vídeo, trata-se de um território simples em tamanho, mas profundo em história, cultura e resistência.
Nagé é, assim, um espelho do Recôncavo Baiano: um espaço onde o rio ensina, o trabalho sustenta e a memória orienta o caminho da permanência.